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O perdão
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Luiz
Roque é poeta e contista
o conto abaixo pertence ao seu livro "Minicontos Fantásticos IV"
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Apesar de seus 88 anos, Seu Antônio enxergava razoavelmente de longe. Com o
envelhecimento, a miopia regredira. De resto, seu corpo estava um caco. Era
cardíaco, já fora operado da próstata e possuía um reumatismo cruel.
Sua
memória era cíclica e, às vezes, desaparecia quase por completo. O geriatra
dissera que ele poderia estar com um início de Alzheimer. “Deus se esqueceu de
mim”, costumava dizer em momentos de lucidez.
Embora
não recordasse facilmente os fatos recentes, conservava, ainda, bem claros, os
do passado remoto. Desde os 83 anos, quando ficara viúvo, Seu Antônio pouco se
interessava por leituras e pela vida em geral.
Como
vivia sozinho, ficava sentado numa cadeira, à porta de casa ou postava-se à
janela, olhando sem ver o escasso movimento da estreita rua em que morava. A
partir do nascimento, esperamos a morte, pensava ele. Mas depois de uma certa
idade, essa obsessão passa a dominar o nosso pensamento.
Naquela
tarde, por volta das três e meia, Lindolfo passou, na calçada oposta. Seu
Antônio achou-o elegante e bem-aprumado. Estaria por volta dos 70. Não o
chamou, porque se lembrou do mal que lhe fizera e que lhe vinha constantemente
à lembrança.
No
dia seguinte, curioso, sentou-se às três horas numa cadeira, à porta da casa.
Em torno de três e meia, Lindolfo passou outra vez. Será que ele percorria todo
dia aquela rua e à mesma hora?
Contudo,
no 3º dia, Seu Antônio deixou passar a hora. Como posso me esquecer até das
coisas importantes? – lamentou-se.
Mal
acabara de repreender-se dessa forma, viu pela janela, a figura tranqüila de
Lindolfo, que passava na calçada oposta, embora fossem 5 da tarde.
No
4º dia, Seu Antônio tomou a decisão. Sentado à porta da casa, esperou por
Lindolfo. Quando este passava na calçada oposta, o idoso chamou-o: “Lindolfo!”
O
homem atravessou a rua. Seu Antônio estendeu-lhe a mão, que Lindolfo estreitou.
“Lembra-se
de mim, Lindolfo?”
“Claro,
Antônio, como tem passado?”
“Péssimo.
Mas isso não importa. Tenho de lhe dizer uma coisa. Lembra-se de quando você
fez os testes para entrar na Matarazzo de que eu era diretor?”
“Perfeitamente”.
“O
seu desempenho foi ótimo, Lindolfo. Mas eu o barrei, porque era amante da sua
mulher que já trabalhava lá. Estou contando isto para pedir-lhe perdão“.
“Eu
já sabia disso. E já o perdoei, Antônio”.
O
velho tinha os olhos em lágrimas. Perguntou, com voz rouca e entrecortada:
“E
por que você passa sempre aqui?”
“Para
que você possa morrer tranqüilo”, sorriu Lindolfo. Apertou as mãos nodosas e
afastou-se.
No
dia seguinte, Seu Antônio ligou para a filha mais velha e disse-lhe que falara
com Lindolfo.
“Papai,
o Lindolfo Abraão morreu no ano passado”.
“Como??”
“Morreu
de infarto. Tinha 76 anos. Você foi conosco ao velório dele. Pai, sua cabeça
está bem ruinzinha”.
“Está,
mas agora me sinto liberado”.
“O
quê?”
“Obrigado,
minha filha”. E desligou. Dois dias depois, Seu Antônio morreu.
(Julho/99)
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